De dia:
Minhas escápulas convertidas em cabides. Caminho pelo Passeio. Porque não são idéias, são escapes da memória. Vitoriosa de que chegarei a tempo para o ensaio.
De noite:
Estou aqui há um bom tempo. Não necessariamente bom.Estou aqui e em São Paulo, lembrando o Reveillon com trabalho pesado e meu namorado se abstendo dos fogos. Tão cruel o dinheiro, podando o amor. São 1400 pilas pela noite de roupa branca. Você vai ver, pagar o aluguel, quer melhor virada de ano? HA! Na mochila, o creme de leite do strudell , a poesia do Modo. Gosto mais de tocar a missa do que a ópera do anão. Tusso, acordarei às 6. Nada muda esta rotina. Talvez mais ou menos pressa . Penso em Ricardo. Sinto minha cabeça pesada, uma saudade do tamanho da China. Este cheiro que me acompanha, que me envergonha. Perto do chefe me calo, sem ninho. Ía falar de poesia? HA
O QUE SERÁ QUE SERÁ ESCREVER PARA Curso com Ramiro Osório
"O QUE SERÁ QUE SERÁ ESCREVER PARA CRIANÇA?" Daí a perguntarmos-nos:
"O QUE SERÁ QUE SERÁ ESCREVER PARA ADULTO? foi um passinho de dança.
Em 2010, a dança vai pois continuar, através de uma expedição mais aventurosa, tanto assim que não pode fazer parte da sua essência pré-estabelecer-lhe um itinerário. Seria o mesmo que pretender definir previamente o sumário das sessões de uma psicanálise ou o índice de um sonho.( "O que será o amanhã? responda quem souber.")
Nem curso nem discurso. Quando muito: "Fragmentos de um discurso literário", que não existiu, não existe, nem existirá inteiro.
Palavra puxando palavra. Ideia puxando ideia, saibam desde já que deste rio, do curso deste rio, desta "terceira margem" não sairão doutores em nada. Quando muito: Doutores Nonada. Bem aventurados os bastardos! citando de cor Shakespeare. Pessoa, Rimbaud, Lautréamont nunca na vida foram doutores. Eram doutos.
Brincar (tal como viver) é uma coisa muito séria. Vivemos numa sociedade terroristicamente pragmática, progromática e practicista. Robotizante. Gostaria que estes encontros correspondessem à hora do recreio, ao domingo da vida pronto-a-viver, às férias do best-sellerismo pronto-a-escrever dos livros que se vendem como sapatos.
Que tal um "curso" pelo prazer do gesto?
Talvez se saiba melhor o que é escrever quando alguma coisa desaprendemos.
Precisamente: saber menos pode ser saber mais. Ter mais dúvidas pode ser o caminho. E o caminho é mais importante do que a meta. Metas físicas são do domínio dos Jogos Olímpicos. Nestes nossos jogos não haverá cronómetros, nem medalhas. A nossa matéria é aquela de que são feitos os sonhos. (O Falcão Maltês, acaba citando Shakespeare.)
Até 9 de Janeiro, pois!
Ramiro Osório
O assunto em casa, hoje:
- Começa com chocalho?
-Eu sei como começa . Com triângulo, reco-reco e depois chocalho.
-Olha só como começa: o piano faz o trem, aí o violoncelo faz o tema e depois inverte.
- Eu não sei, é difícil tocar isso direito. Sabia que quem está tocando é o tio dela?
-Eu sei, ela me disse na escola.
-O tio dela é um dos melhores do mundo.
- É, ele toca direitinho.
-Eu nem conhecia esta parte.
-É o Trenzinho Divertido.
- Começa com chocalho?
-Eu sei como começa . Com triângulo, reco-reco e depois chocalho.
-Olha só como começa: o piano faz o trem, aí o violoncelo faz o tema e depois inverte.
- Eu não sei, é difícil tocar isso direito. Sabia que quem está tocando é o tio dela?
-Eu sei, ela me disse na escola.
-O tio dela é um dos melhores do mundo.
- É, ele toca direitinho.
-Eu nem conhecia esta parte.
-É o Trenzinho Divertido.
definição
na página 712
na 1ª coluna
na linha 41
encontrei a minha
pessoa-
constituição mental
em que se observa a
tendência à solidão,
devaneio, má adaptação
às realidades
exteriores
na 1ª coluna
na linha 41
encontrei a minha
pessoa-
constituição mental
em que se observa a
tendência à solidão,
devaneio, má adaptação
às realidades
exteriores
homem em casa
É bom ter um homem em casa.
Quando você mora só
você não quer um homem
em casa.
Homem em casa é, aliás,
detestável.
Mas quando um homem
consegue entrar em casa,
aos poucos
você repara os benefícios.
Quando você mora só
você não quer um homem
em casa.
Homem em casa é, aliás,
detestável.
Mas quando um homem
consegue entrar em casa,
aos poucos
você repara os benefícios.
Em Londres
Foi um bom dia.
O meu amor esteve
especialmente espirituoso.
Encontrei um novo
Baudelaire.
O poeta da porta ao lado contou-me
umas histórias bem indecentes.
A minha musa me bate uma mensagem
na minha Olivetti:
Pelo menos hoje
escreve um poema com alguma
efervescência.
Eunice de Souza
O meu amor esteve
especialmente espirituoso.
Encontrei um novo
Baudelaire.
O poeta da porta ao lado contou-me
umas histórias bem indecentes.
A minha musa me bate uma mensagem
na minha Olivetti:
Pelo menos hoje
escreve um poema com alguma
efervescência.
Eunice de Souza
Um poema de Paulo Henriques Britto
A surpresa do amor - quando já não se
espera do mundo nada em especial,
e a evidência de que os anos vão se
acumulando sem nenhum sinal
de sentido já não dói nem comove-
quando em matéria de felicidade
não se deseja nada mais que uns nove
metros quadrados de privacidade
para abrigar os prazeres amenos
do sexo fácil e da literatura
difícil- eis que então, sem mais nem menos,
como quem não quer nada, suge a cura-
definitiva, radical, imensa -
do que nem parecia mais doença.
espera do mundo nada em especial,
e a evidência de que os anos vão se
acumulando sem nenhum sinal
de sentido já não dói nem comove-
quando em matéria de felicidade
não se deseja nada mais que uns nove
metros quadrados de privacidade
para abrigar os prazeres amenos
do sexo fácil e da literatura
difícil- eis que então, sem mais nem menos,
como quem não quer nada, suge a cura-
definitiva, radical, imensa -
do que nem parecia mais doença.
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